A patrulha ideológica do voto alheio
Campanha que expõe artistas por não se posicionarem no 2º turno das eleições transforma silêncio em falha moral
Em 1929, a Associação Russa de Escritores Proletários promoveu campanhas de difamação com práticas policialescas contra artistas que se recusavam a seguir os ditames do partido comunista.
Teve início uma onda de retratações públicas. Escritores confessaram seus "pecados", outros pararam de escrever e muitos cometeram suicídio, por se recusarem a compactuar com a unanimidade política e estética.
Lembrei dessa patrulha ideológica ao ver uma campanha que cobra posicionamento público de artistas brasileiros sobre o 2º turno das eleições. Em imagens produzidas por IA, fotos de atores e cantores, como Selton Mello, Rodrigo Santoro e Sandy, foram estampadas em caixas de leite com anúncio de "desaparecidos".
A campanha foi noticiada como algo pitoresco, quando na verdade ignora valores democráticos. Não se trata de caso isolado. Nas redes, artistas e pessoas comuns fazem a mesma cobrança a partir de falácias como "não se pronunciar é apoiar o fascismo".
Como se trata do 2º turno, nota-se que a campanha "desaparecidos" não é um chamado genérico legítimo de participação no debate político, mas pressão para que indivíduos publicamente identificados declarem voto.
Exige-se que o artista tenha determinada convicção política e que demonstre essa convicção. O silêncio vira falha moral.
No Brasil e demais democracias liberais, contudo, o voto é secreto. Tal princípio visa proteger o eleitor de coerções financeiras e políticas. Mas ele não tem apenas valor instrumental, já que também expressa o respeito à autonomia política e à liberdade de consciência do indivíduo ante as pressões da família, do empregador, dos colegas no trabalho ou na universidade, da comunidade religiosa ou de seu grupo social.
Ievguêni Zamiátin foi perseguido pelo regime soviético. Seu livro "Nós" (1924), que inspirou "1984" (1949) de George Orwell, só foi publicado na URSS em 1988. Em 1926, escreveu: "A revolução não precisa de cães que se sentam à espera de um petisco ou porque temem o açoite. Nem precisa de treinadores para esses cães. Precisa de escritores sem medo".
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