A meta da Meta
É inviável combinar convicções democráticas com a crença na fácil manipulação do voto por plataformas de rede
Dias atrás, o Starlink, de Elon Musk, reduziu a velocidade do sinal que orienta as Forças Armadas ucranianas. Segundo incontáveis relatos consistentes, a Meta, de Mark Zuckerberg, manipulou os algoritmos do Facebook e do Instagram para favorecer a campanha de Flávio Bolsonaro. Os dois magnatas operam a serviço de Trump, mas o impacto das ações do segundo não pode ser comparado ao das manobras do primeiro.
A velocidade do Starlink na Ucrânia desabou logo após Trump anunciar importações de diesel russo e chantagear Zelenski, exigindo o fim dos ataques ucranianos a refinarias e depósitos de combustíveis que amparam a guerra imperial russa. Sem o sinal em nível máximo, os sistemas antimísseis perdem a capacidade de interceptar projéteis balísticos. A ação de Musk potencializa a estratégia de terror contra civis utilizada por Putin num cenário em que suas forças não conseguem avançar nas frentes de batalha.
No Brasil, em meio à acirrada campanha de segundo turno, as peças publicitárias de Bolsonaro circulam nas redes em profusão muito superior às de Lula, graças às trucagens algorítmicas. Há, ainda, provas de que a IA (inteligência artificial) das plataformas da Meta obstruiu a criação de imagens de propaganda de Lula, mas não as de seu adversário. O PT reclamou junto ao TSE e, na militância lulista, responsabiliza-se a empresa por uma eventual derrota. Musk certamente ajuda Putin a matar civis; Zuckerberg, porém, não dispõe do poder de decidir uma eleição.
A interferência de Estados estrangeiros em processos eleitorais, via ciberespaço, já tem história. Provou-se que agentes do Kremlin atuaram no Reino Unido, no referendo do Brexit, em 2016, e nas três últimas campanhas presidenciais nos EUA. Contudo, atribuir à Rússia a saída britânica da UE (União Europeia) ou os dois triunfos de Trump equivale a idiotizar os eleitores. Trump foi derrotado em 2020, como também o húngaro Viktor Orbán, em abril passado, apesar dos esforços combinados da Casa Branca e do Kremlin.
Na Hungria, Orbán perdeu mesmo exercendo controle extensivo sobre os veículos jornalísticos. No Reino Unido e nos EUA, como fruto da liberdade de imprensa, os cidadãos têm acesso a uma multiplicidade de meios de informação. Nesses casos, culpar as plataformas de rede não passa de um álibi invocado pelas forças políticas derrotadas para ocultar o fracasso de suas mensagens.
É inviável combinar convicções democráticas com a crença na fácil manipulação do voto por plataformas de rede. As coisas piorarão com o avanço da IA. Já operam, na campanha israelense, perfis de IA com a habilidade de se fazer passar por indivíduos reais que utilizam argumentos persuasivos adaptados à personalidade do interlocutor. Mesmo assim, na democracia, inexiste alternativa senão confiar na capacidade de discernimento dos eleitores. Tanto dos que votam no meu candidato quanto dos que sufragam o rival.
A meta da Meta é eleger Flávio, cumprindo o desejo da Casa Branca. Merece multas punitivas bilionárias, por manipulação de algoritmos. Mas são os brasileiros, não Zuckerberg, que definirão o resultado. Pelé sugeriu, em 1977, ainda na ditadura, que "o brasileiro ainda não está em condições de votar, por falta de prática e educação política". Se você acredita que a maioria "não está em condições de votar", pois cai nos golpes algorítmicos, desista da política.
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