A maldição do vencedor
Livro clássico de economia comportamental ganha atualização
Especialmente em momentos de polarização afetiva, esperamos o pior de nossos semelhantes. Tentando ver o lado menos lúgubre das coisas, acho que dá para afirmar que humanos não somos tão maus quanto hoje pode parecer. Como espécie, somos cooperativos. Nosso impulso inicial é o de colaborar com o próximo, mas também não somos trouxas. Deixamos de cooperar a partir do instante que o próximo dá sinais de que não é um parceiro confiável. Faz sentido que seja assim. Se fôssemos seres totalmente egoístas e perfeitamente racionais, sempre empenhados em maximizar ganhos, não teríamos ido muito além do Pleistoceno.
A ideia do homem como um cooperador condicional, capaz até de punição altruísta, isto é, de incorrer em custos pessoais para favorecer o grupo, é um dos achados da economia comportamental, inicialmente vista como uma curiosidade. O quadro foi mudando a partir dos anos 1990, quando acadêmicos relevantes começaram a identificar anomalias, como a cooperação condicionada, que não eram explicadas pela figura do Homo oeconomicus, o maximizador radical.
Um dos responsáveis pela mudança de paradigma foi o livro "The Winner's Curse", de Richard Thaler, de 1992, uma coleção de artigos que descreviam essas anomalias. Passados mais de 30 anos, "The Winner's..." ganhou uma importante atualização. Thaler se juntou a Alex Imas para produzir uma obra nova. Os textos originais são reapresentados, mas seguidos de um "como ficou", no qual os autores mostram como as pesquisas evoluíram.
De modo geral, as anomalias ganharam confirmação empírica mais sólida e são por vezes descritas como vieses. O leitor encontrará no livro clássicos como desconto hiperbólico, viés de presente, efeito dotação e, é claro, a maldição do vencedor, que dá nome à obra. Se você vence um leilão em que havia muitos concorrentes, então o mais provável é que tenha pagado um preço maior do que o que o bem de fato vale.
Esse tipo de exercício é valioso numa época em que a ciência vive uma crise de reprodutibilidade.
Comentários 0
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.