A guerra recomeçou; descubra o que mudar em sua carteira
Toda crise faz muitos investidores questionarem os próprios investimentos, quando o verdadeiro problema quase sempre é a ausência de plano de longo prazo
O conflito no Oriente Médio, que parecia estar chegando a um acordo de paz, voltou às manchetes. E bastou a escalada para muitos investidores fazerem a mesma pergunta: devo mudar minha carteira? A dúvida é compreensível. Guerras aumentam a incerteza, afetam mercados, alteram expectativas para inflação, juros, crescimento econômico e lucros das empresas.
Mas vale observar uma curiosidade. Essa pergunta nunca aparece apenas nas guerras. Ela reaparece sempre que surge um grande evento.
Foi assim na crise financeira de 2008. Na pandemia. Na disparada da inflação. Na alta dos juros. Nas eleições. Agora, novamente, com a retomada do conflito no Oriente Médio.
O evento muda. A dúvida permanece. Isso ocorre porque o verdadeiro problema não é o evento, mas como a maioria das pessoas investe.
Repare no que acontece. Surge uma notícia importante e, quase imediatamente, começamos a olhar para a carteira com desconfiança. Não porque saibamos exatamente como aquele evento afetará cada empresa ou cada ativo, ou por quanto tempo ele vai durar, mas porque, no fundo, nunca tivemos muita convicção sobre as escolhas que fizemos anteriormente.
O evento, como a atual guerra, apenas revela uma insegurança que já existia. E essa insegurança costuma nascer da ausência de um planejamento.
O filósofo estoico Sêneca escreveu que "se um homem não sabe para qual porto navega, nenhum vento lhe será favorável". Poucas frases descrevem tão bem o comportamento do investidor.
Quem nunca definiu qual patrimônio deseja construir, quanto tempo tem para chegar lá, quanto conseguirá investir regularmente e qual retorno realmente precisa alcançar dificilmente terá confiança quando surgirem turbulências. Afinal, se não existe um destino claramente definido, como saber se a carteira continua adequada?
É justamente nesse momento que as emoções assumem o controle. A próxima crise parece única. Toda manchete parece definitiva. A guerra do momento parece capaz de mudar o mundo para sempre.
A história mostra exatamente o contrário. As crises mudam de nome. Os conflitos mudam de lugar. Os ciclos econômicos se alternam. Mas a necessidade de planejar o patrimônio permanece exatamente a mesma.
Por isso, antes de pensar em qual ativo comprar ou vender, existe uma decisão muito mais importante: construir um planejamento financeiro.
É esse planejamento que define o destino. Quanto patrimônio se pretende acumular? Em quanto tempo? Quanto investir todos os meses? Qual retorno é suficiente para alcançar esse objetivo? Só depois dessas respostas faz sentido discutir a carteira. E essa carteira será sua estratégia.
Naturalmente, o cenário econômico muda. E uma boa estratégia admite pequenos ajustes táticos. Aproveitar oportunidades, reduzir riscos específicos ou alterar modestamente algumas posições faz parte da gestão. Mas esses ajustes são táticos. Portanto, dificilmente vão influenciar toda a carteira.
O problema é quando fazemos o contrário: deixamos de ter estratégia e passamos a viver apenas de tática. Cada manchete se transforma em motivo para reconstruir toda a carteira.
Além do desgaste emocional, esse comportamento cobra um preço elevado. Cada mudança implica custos, tributação, spreads e aumenta a probabilidade de comprar quando o entusiasmo domina o mercado e vender quando o medo toma conta dele.
Isso não significa ignorar o cenário econômico. Guerras importam. Juros importam. Inflação importa. Todos estes eventos influenciam preços, mas eles não mudam seus objetivos de longo prazo.
Quando esta guerra terminar, outra preocupação ocupará o lugar. Sempre foi assim e sempre será.
O investidor que organiza investimentos em torno das manchetes passará a vida inseguro e reconstruindo a carteira. O investidor que organiza investimentos em torno de um planejamento fará apenas os ajustes necessários para continuar seguindo na mesma direção. Porque um planejamento financeiro não existe para prever a próxima guerra, mas para estar preparado para ela.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.