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Política

A foto saiu pela culatra

Por Beto Vasques. Visita à Casa Branca tentou virar a pauta do caso Vorcaro, mas acabou reforçando a imagem de improviso e fragilidade política.

28/05/2026 10:27 Congresso em Foco 0 visualizações há 5 horas
A foto saiu pela culatra

Parte relevante do noticiário e do debate público digital dessa semana girou em torno da foto de Flávio Bolsonaro na Casa Branca. Digo foto porque, até aqui, foi ela, mais do que qualquer conteúdo político, diplomático ou programático, que organizou a repercussão da visita express do pré-candidato do PL a Donald Trump.

A cena parecia desenhada para produzir grandeza. Gerou, no entanto, constrangimento.

Segundo o noticiário internacional, Flávio esteve no Salão Oval acompanhado dos encrencados com a Justiça brasileira, Eduardo Bolsonaro, seu irmão, e do influenciador digital Paulo Figueiredo, neto do último ditador e Sancho Panza de todas as horas de Eduardo.

A visita express ocorreu em meio à crise provocada pelo caso Flávio-Vorcaro, que atingiu em cheio a candidatura do senador e obrigou sua campanha a tentar desesperadamente buscar uma saída para girar a pauta política nacional. A ideia brilhante foi a busca atabalhoada e extemporânea de uma foto ao lado de Trump.

No entanto, não bastassem a pressa e a falta de solenidade, a imagem divulgada transmitiu mais subserviência que altivez e mais amadorismo que diplomacia. Longe do prestígio internacional, evidenciou a tentativa agônica por uma foto de sua "passadinha" no Salão Oval para salvar a semana. Para quem pretendia posar como estadista, Flávio saiu com jeito de turista político acidental em excursão de emergência.

A comparação é inevitável. Quando Trump recebeu, em maio de 2025, o então candidato presidencial polonês Karol Nawrocki, houve registro oficial da Casa Branca, foto protocolar e encenação de apoio político explícito, com direito a aperto de mão e joinha lado a lado. No caso de Flávio, a imagem que circulou como troféu doméstico de campanha, ao invés de chancela internacional de um futuro estadista, terminou parecendo carimbo de improviso e fragilidade.

Pior: ao tentar transformar a foto em agenda, na coletiva de imprensa improvisada após o encontro, Flávio abriu espaço para perguntas ainda mais incômodas. Fugiu dos questionamentos sobre sua relação com Vorcaro como o diabo da cruz. Quanto aos temas tratados com Trump, segundo a versão dos irmãos Bolsonaro - que perdeu parte da sua credibilidade nas últimas semanas - teriam sido abordados o crime organizado e as terras raras. No papel, tudo parece grandioso. Na prática, soou como uma lista de compras ideológica entregue ao primo rico do Norte: criminalizar o inimigo interno com o rótulo trumpista de "narcoterrorismo", oferecer as riquezas estratégicas brasileiras como prova de boa vontade e reforçar a velha disposição bolsonarista de confundir alinhamento internacional com submissão.

Há algo de revelador nessa cena. Quando um pré-candidato brasileiro precisa correr a Washington para tentar se recompor diante de um escândalo doméstico, o problema já não é apenas eleitoral. É de imaginação política. O bolsonarismo segue acreditando que a Casa Branca funciona como cartório de autenticação da direita brasileira. Como se bastasse uma foto com Trump para desaparecem não só os áudios, mas seu passado com Vorcaro, e devolver ao clã a fantasia de templários em sua cruzada santa anticorrupção.

Não basta. A repercussão da imagem pode ser lida em três dimensões.

A primeira é comunicacional. Para a militância bolsonarista, ainda abalada pelas conversas inconfessáveis entre Flávio e Vorcaro, qualquer registro ao lado de Trump vale como relíquia. A foto funciona como escapulário digital: não explica nada, mas consola os fiéis. Já para os internautas progressistas, foi um banquete. A performance visual do zero um produziu uma profusão de memes, piadas e comparações curiosas. A tentativa de demonstrar força terminou oferecendo matéria-prima para o deboche.

A segunda dimensão é estratégica. A operação tinha um objetivo evidente: virar a pauta. Era preciso deslocar o foco da relação com Vorcaro, do financiamento do filme Dark Horse e das explicações erráticas dadas pelo senador e seu entorno trapalhão. Mas faltou combinar com a própria crise — e, aparentemente, com os próprios aliados.

O governador paulista, Tarcísio de Freitas, puxou a fila do fogo amigo e, enquanto seu aliado se deixava fotografar na Casa Branca, disparou: "tem muitas questões que ele (Flavio) precisa explicar" sobre o "escândalo do banco Master". Valdemar Costa Neto, em entrevista, piorou o que já era ruim ao sugerir que Flávio teria visitado Vorcaro para cobrar dinheiro, não para romper a relação com o banqueiro, como sustentava a versão do senador. Se foi deslize, foi devastador. Se foi recado, Michele agradece. Em ambos os casos, a fala do presidente do PL reabriu a ferida que a foto em Washington tentava cobrir com curativo MAGA.

Como se não bastasse, Cláudio Castro também não ajudou. O ex-governador fluminense voltou a ser tragado pelo entorno do escândalo do Banco Master, com investigações envolvendo o Rioprevidência e suspeitas sobre aportes bilionários no banco de Daniel Vorcaro. Ou seja: enquanto Flávio tentava vender ao eleitor a imagem de candidato recebido no centro do poder mundial, o noticiário brasileiro insistia em devolvê-lo ao pântano doméstico de Vorcaro, de onde tentava escapar.

A terceira dimensão é eleitoral. E aqui talvez esteja a pior notícia para o pré-candidato do PL. Petistas e bolsonaristas dificilmente mudarão de lado por causa da foto. Os primeiros rirão; os segundos celebrarão. O problema está nos eleitores nem-nem, independentes ou pendulares — justamente aqueles que decidirão uma eleição que se prevê apertada. Para esse eleitorado, a cena pode produzir mais repulsa do que admiração.

Em primeiro lugar, porque a subordinação antipatriótica dos Bolsonaro aos Estados Unidos costuma pegar mal fora da bolha ideológica, ainda mais junto a esse eleitorado pendular. Em segundo, porque Trump não é exatamente uma figura sedutora para eleitores moderados, refratários ao seu radicalismo, imprevisibilidade e histrionismo. Em terceiro, porque esse eleitor é mais pragmático do que performático: quer saber o que o Brasil ganha com a visita, quais interesses nacionais foram defendidos, quais resultados concretos foram alcançados.

Fotos humilhantes, discursos vazios sobre PCC e acenos à entrega de terras raras ao aliado poderoso do Norte dificilmente respondem a essas perguntas, distanciando ainda mais de Flávio esse eleitorado decisivo.

O ato falho de Flávio na coletiva, agradecendo ao "presidente Lula" pela visita, talvez tenha sido o melhor resumo involuntário da excursão. Em política, o inconsciente às vezes tem mais precisão do que o marqueteiro. O senador foi aos Estados Unidos tentar produzir uma cena de força, mas entregou uma imagem de fragilidade. Tentou virar a pauta, mas acabou mantendo vivo o tema que queria enterrar. Buscou a lã trumpista e pode voltar tosquiado.

No fim, a foto não resolveu a crise. Apenas lhe deu moldura.

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