A escolha eleitoral do Brasil sob a ótica do caráter
Bússola moral e humanidade dos líderes políticos realmente importam
Em muitos países, entre eles o Brasil e os Estados Unidos, é comum que os eleitores escolham um presidente com base na percepção que têm de seu caráter. Em algumas eleições, esse tem sido o fator decisivo; quando não, ainda assim é um ponto importante.
Mas Jair Bolsonaro (PL) foi eleito presidente do Brasil em 2018, apesar de ter dito publicamente: "Sou a favor da tortura —você sabe disso. E o povo também é a favor". Não foi um ato falho nem uma piada hedionda. Em 2016, quando era deputado federal e votou pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), ele dedicou seu voto ao militar responsável por torturá-la na prisão durante a ditadura militar. Bolsonaro também elogiou o regime dos generais (1964-1985), afirmando que o erro dela foi não ter matado gente suficiente.
Agora é a vez de Flávio Bolsonaro, filho de Jair, que disputará o segundo turno no próximo domingo (25). Ele defendeu a homenagem do pai ao torturador de Dilma e também elogiou repetidamente a ditadura.
A relevância desses traços em comum, bem como dos valores morais —ou da falta deles , não decorre de culpa por associação. Os Bolsonaros formam uma equipe: foi o capital político conquistado por Jair durante sua Presidência que levou Flávio à posição em que está hoje. O senador assumiu publicamente essa convergência política, apresentando-se como "Bolsonaro 2.0".
Flávio concorre contra o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Lula iniciou sua trajetória política como líder sindical enquanto trabalhava em uma fábrica e foi presidente do Brasil de 2003 a 2010. É claro que Lula é pró-democracia e jamais elogiaria a ditadura contra a qual lutou —muito menos assassinatos políticos. Seus valores são diferentes dos da família Bolsonaro.
Essa diferença de valores também se manifesta em grandes divergências sobre políticas que moldam a vida, as oportunidades e o padrão de vida das pessoas. Mais recentemente, na sexta-feira (16), o Congresso Nacional aprovou uma emenda constitucional que representa uma grande melhoria na vida de milhões de trabalhadores. Ela reduz a semana de trabalho de 6 para 5 dias e também estabelece, no prazo de 14 meses, uma jornada semanal de 40 horas; a redução ocorre sem qualquer perda salarial.
Durante meses, Flávio e seus aliados se opuseram vigorosamente à reforma e a bloquearam, enquanto Lula lutava por sua aprovação. Isso prosseguiu até a semana anterior à votação; no último minuto, o candidato do PL votou a favor. No entanto, de acordo com a imprensa, tudo indica que Flavio e seus aliados tentarão reverter a medida caso ele vença, de modo que os trabalhadores teriam de aceitar cortes salariais em troca da redução da jornada.
A atual Presidência de Lula conseguiu reduzir a pobreza em 27% e a extrema pobreza em mais de 40%; o desemprego caiu de 9,3% para a mínima histórica de 5,4%; e o salário mínimo real aumentou 12,7%. Seus dois primeiros mandatos produziram avanços ainda mais expressivos. Está claro que esses e outros avanços não podem ser esperados de um governo Flávio Bolsonaro, considerando seu histórico, seus objetivos declarados e perseguidos e seus valores.
Esses objetivos e valores transformaram os Bolsonaros em almas gêmeas da dupla Donald Trump-Marco Rubio —por razões óbvias. No que diz respeito à violência, o próprio Trump ameaçou duas vezes, nos últimos meses, aniquilar a população do Irã. Flávio alinhou-se à política externa de Trump, inclusive na Guerra do Irã. Apoiou os ataques militares dos EUA que mataram centenas de pessoas em pequenas embarcações ao largo da costa do Caribe desde 2 de setembro de 2025, sob a alegação —sem provas— de que transportavam drogas para o território norte-americano.
Rubio e Trump intervieram intensamente para ajudar Flávio nesta eleição; isso está amplamente documentado. De sua parte, Flávio prometeu que o Brasil ingressará no "Escudo das Américas" se vencer. Trata-se de um bloco político e militar fundado pelos EUA e liderado por Trump, criado para reafirmar e consolidar a dominação norte-americana sobre a América Latina e o Caribe.
Flávio está sendo investigado por mais de US$ 12 milhões, supostamente por um filme que obteve de um banqueiro preso pela maior fraude bancária da história do Brasil. O caso resultou em quase US$ 8 bilhões em ressarcimentos a depositantes. Nada disso parece ter abalado o senso de importância divina de Flávio: "Deus me escolheu para salvar o Brasil", declarou. Em 10 de outubro último, descreveu sua campanha como uma "guerra espiritual".
Trump, o aliado mais importante dos Bolsonaros no mundo, dirigiu duras críticas ao papa Leão 14, em abril, porque o pontífice se opunha à sua guerra contra o Irã. Durante a controvérsia, o papa proferiu palavras contundentes contra Trump, embora pudessem aplicar-se igualmente aos parceiros dele no Brasil:
"Bem-aventurados os que promovem a paz!", disse o papa. "Mas ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus em benefício de seus interesses militares, econômicos e políticos, arrastando o que é sagrado para as trevas e a imundície."
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