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A escala 5x2 chegou, e o salão terá de fazer contas

Desafio é aumentar produtividade sem precarizar relações

A escala 5x2 chegou, e o salão terá de fazer contas

Trabalho com beleza há anos e aprendi cedo que salão não vive só de técnica. Vive de agenda, cadeira ocupada, custo fixo, equipe e cliente que quase sempre quer ser atendida quando todo mundo também quer. Por isso, a jornada 5x2 não é apenas uma discussão trabalhista para o nosso setor, é uma discussão de gestão.

A emenda constitucional 141/2026 encerra a escala 6x1 e estabelece dois dias de descanso semanal, com redução gradual da jornada máxima de 44 para 40 horas, sem corte salarial. A primeira etapa começa em dezembro, com 42 horas semanais. A mudança traz uma pergunta inevitável para quem empreende: como manter o negócio saudável com menos horas disponíveis?

No setor de beleza, essa conta tem peso. Segundo a ABIHPEC, beleza e cuidados pessoais movimentaram cerca de R$ 200 bilhões em 2025 e geraram aproximadamente 7 milhões de oportunidades de trabalho. O Brasil é o terceiro maior mercado consumidor do mundo. Ao mesmo tempo, o DataSebrae registrou 235.708 novos CNPJs de beleza em 2025; 94% eram MEIs.

Esses números mostram um setor grande na economia e pequeno na estrutura de boa parte de seus negócios. Quem está na ponta não administra uma corporação. Administra um salão com quatro cadeiras, uma clínica com poucos profissionais ou um estúdio em que qualquer horário vazio aparece no caixa.

Não acredito que a resposta seja trabalhar mais a qualquer custo e não acredito que reduzir a jornada, por si só, resolva os problemas de quem trabalha. O desafio é aumentar produtividade sem precarizar relações. Isso exige agenda organizada, menos faltas, horários de pico bem distribuídos, tecnologia, precificação correta e conhecimento do quanto cada serviço deixa de resultado.

Nosso setor tem outra particularidade. A Lei do Salão Parceiro permite contratos entre estabelecimentos e profissionais como cabeleireiros, manicures, esteticistas e maquiadores, desde que cumpridas as regras legais. Ao mesmo tempo, recepcionistas, gestores e outros funcionários podem estar sob o regime da CLT. Na mesma operação convivem modelos diferentes e qualquer mudança de jornada exige cuidado para não confundir parceria com vínculo empregatício.

Passei muitos anos acreditando que crescer significava atender mais. Depois percebi que crescer significa produzir melhor. Uma cadeira ocupada durante dez horas não necessariamente rende mais do que outra bem gerida durante oito. Uma agenda cheia de encaixes também pode esconder preço errado, atraso, retrabalho e equipe exausta.

Talvez esse seja o ponto mais incômodo da 5x2 para muitos empresários. A nova regra expõe um problema antigo: negócios que dependem de horas demais para compensar gestão de menos.

O salão que souber fazer conta, organizar escala, medir produtividade e valorizar o tempo de profissionais e clientes atravessará essa transição melhor. Quem ainda administra no improviso terá de aprender rápido. A 5x2 pode obrigar o setor a dar um passo que já deveria ter dado, que é trocar a cultura da agenda esticada pela cultura da gestão.

Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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