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Economia

A eleição e a dependência das plataformas

Testes mostram respostas diferentes da Meta AI sobre Lula e Flávio Bolsonaro

A eleição e a dependência das plataformas

Entre um vídeo que alcança milhões de pessoas e uma mensagem que deixa de circular, parte da disputa eleitoral passa por decisões que o público mal consegue enxergar. Nesta campanha, os gastos com impulsionamento, as suspensões de canais e a produção de propaganda por inteligência artificial levaram candidatos e tribunais a discutir as condições em que se chega ao eleitor nas plataformas digitais.

O investimento de Flávio Bolsonaro nas redes, três vezes o de Lula, colocou em evidência o dinheiro destinado a disputar essa atenção. A campanha petista reclamou de dificuldades para impulsionar publicações e questionou o alcance dos vídeos de Nikolas Ferreira. No WhatsApp, o canal Exército do Lula passou por ordens de suspensão e reativação no TSE.

A controvérsia alcançou a Meta AI. Em testes da Folha, a ferramenta recusou produzir material para Lula e atendeu a pedidos sobre Flávio. As respostas variaram conforme o país do número associado à conta. A empresa negou favorecimento e atribuiu as diferenças a falhas na identificação dos candidatos e à aplicação das regras eleitorais brasileiras.

Por caminhos diferentes, chegamos a regras e decisões de uma mesma empresa. A Meta aparece como fornecedora de inteligência artificial, vendedora de publicidade, administradora de redes sociais e dona do principal aplicativo de mensagens.

Cada conflito tende a ser tratado como um problema de conteúdo, expressão ou propaganda. Em conjunto, eles revelam a concentração de poder em vários segmentos da vida digital e a falta de alternativas para quem depende deles.

A dimensão dessa presença ajuda a entender o problema. O Digital 2025 registrou, entre internautas brasileiros de 16 anos ou mais, 3h32 diárias nas redes sociais e cerca de oito plataformas utilizadas por mês. A variedade de aplicativos convive com a concentração de seus proprietários.

A Meta, por exemplo, reúne WhatsApp, Instagram e Facebook, instalados em 99%, 91% e 76% dos smartphones pesquisados pela Mobile Time e Opinion Box em 2025. Os públicos se sobrepõem. Um candidato pode trocar o Instagram pelo WhatsApp e continuar diante do mesmo centro de decisão empresarial.

Uma campanha procura o eleitor onde ele já está, assim como um comerciante busca seus clientes. Mudar de serviço exige convencer esse público a fazer o mesmo. A conta do celular reforça essa dependência.

Pacotes que permitem usar certos aplicativos sem descontar da franquia barateiam sua utilização em relação às alternativas. Quando os dados acabam e só alguns serviços continuam disponíveis, a escolha de onde se informar passa a depender também do desenho do plano contratado.

Pesquisas acadêmicas e decisões de autoridades concorrenciais já examinam como o acúmulo de usuários e dados dificulta a entrada de concorrentes. Nas redes sociais, o modelo de negócio transforma a permanência do público em receita publicitária. Para conquistar essa audiência, uma nova empresa precisa vencer a vantagem de quem já reúne os contatos, conhece os hábitos e controla os caminhos até o consumidor.

Ficar de fora também tem custos. Trabalhos de Leonardo Bursztyn e coautores mostram como a adesão de uns aumenta a pressão sobre os demais. Em pesquisa sobre smartphones, eles analisam como o desenho de produtos fortalece uma empresa ao prejudicar quem escolhe o concorrente.

Estudos sobre dependência digital acrescentam os hábitos e as dificuldades de autocontrole. O uso pode continuar mesmo quando a pessoa deseja reduzi-lo. Essa permanência concentra audiência e receita, reforçando o poder de quem estabelece as condições que dificultam sair.

A falta de alternativas ajuda a sustentar a opacidade. Campanhas e anunciantes precisam continuar usando os serviços cujas decisões questionam, e o Judiciário depende de informações das próprias empresas para reconstruir o que ocorreu enquanto bibliotecas de anúncios e relatórios oferecem transparência parcial. Por conseguinte, quem depende desses serviços tem não apenas menor capacidade de escolha, como também menor força para exigir explicações.

No Brasil, a discussão sobre o digital costuma se concentrar na moderação de conteúdos e no controle de ferramentas. Os casos envolvendo produtos da Meta expõem um problema de poder de mercado que atravessa essas discussões e independe de preferências ideológicas.

A melhor resposta é uma política pública que promova mais mercado, ampliando a concorrência e as alternativas de comunicação. Poder escolher outro fornecedor cria incentivos para estruturas abertas e transparentes, reduz a dependência e pode diminuir o espaço para suspeitas de manipulação. Sem essa lente econômica, seguiremos discutindo cada conteúdo, enquanto poucos agentes continuam decidindo as condições em que todos eles circulam.

Fonte original Publicado originalmente por Folha Mercado
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