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A direita moderada respira por aparelhos, escreve leitor

Texto responde coluna de Joel Pinheiro da Fonseca

A direita moderada respira por aparelhos, escreve leitor

Em recente coluna publicada na Folha, Joel Pinheiro da Fonseca levanta uma pergunta muito válida: onde foi que a direita errou? Numa espécie de carta de saudade à direita liberal, o autor lembra que cabia a esse grupo "instituições independentes, democracia liberal, império da lei, igualdade de oportunidades, políticas públicas baseadas em evidências". São características que fazem falta, sobretudo diante da disputa sem regras travada pelos dois grupos que dominam a política brasileira desde, pelo menos, meados da década passada.

Se eu pudesse responder à pergunta, diria que a direita liberal não errou, mas sofreu um golpe que a deixou respirando por aparelhos.

Firmes na defesa de uma sociedade plural —princípio inegociável—, os moderados não souberam lidar com os ventos que empurravam a política brasileira para os extremos. Diante de acusações de aderência ao nazismo ou compromisso com os banqueiros e com a manutenção da fome, nomes como Geraldo Alckmin e Marina Silva, quando oposição ao petismo, se recusaram a jogar o jogo sujo e deixaram o meio de campo livre para quem via nestes adjetivos motivo de orgulho: se há incômodo, algo deve estar funcionando.

Apoio-me na ideia publicada em coluna do Estadão, de que essa nova direita, ocupando o vácuo deixado pelos liberais de centro-direita, percebeu que as "cartadas identitárias" da esquerda tradicional eram exageradas e que havia espaço para capitalizar em cima delas.

O vocabulário que Lana aponta como típico da esquerda para atacar quem ousasse fazer qualquer crítica —"transfóbico", "misógino", "machista" e "racista" — deixou de surtir efeito e passou a ser usado como arma. A nova direita, diferente daquela cujo desaparecimento é notado com pesar, enxerga nas acusações de transfobia uma virtude. "Se o sou por defender operações violentas em favelas, que assim seja."

Alckmin e Marina Silva, diante de acusações desta gravidade, baixariam suas cabeças e escreveriam artigos com longos pedidos de desculpas em jornais de grande circulação; Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Eduarda Campopiano, não. Estes últimos fazem vídeos de grande alcance para se apresentar como vítimas de uma esquerda que perdeu a conexão com a realidade e que prioriza pautas pós-materialistas em detrimento daquilo que a nova direita diz considerar mais urgente: segurança pública, saneamento e educação.

Então, respondendo à pergunta de Joel, eu diria que a direita liberal não errou.

Ficamos para trás porque não conseguimos ou nos recusamos a agir como passou a exigir o "nós contra eles" fomentado pelas principais figuras da política brasileira.

João Guilherme Neves é cientista político pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

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Fonte original Publicado originalmente por Folha de S. Paulo
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