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Economia

A batalha perdida de Trump contra a energia limpa

Guerra com o Irã e boom da IA reforçam argumentos a favor da energia limpa, apesar dos esforços do presidente para contê-la

A batalha perdida de Trump contra a energia limpa

Londres |Financial Times Desde que voltou à Casa Branca, Donald Trump está empenhado em conter as energias renováveis em favor dos combustíveis fósseis, chamando a energia eólica e a energia solar de "fraude do século".

A "One Big Beautiful Bill Act", lei do presidente dos Estados Unidos aprovada no ano passado, reduziu drasticamente os créditos fiscais para investimentos verdes que haviam sido criados por seu antecessor, Joe Biden.

Seu governo também retirou os EUA do Acordo de Paris sobre o clima pela segunda vez e paralisou aprovações rotineiras de mais de 150 projetos eólicos em terra. A energia eólica é para "gente burra", e os parques eólicos marítimos deixam as baleias "um pouco malucas", afirmou o comandante-em-chefe.

Ainda assim, a expansão da energia verde nos Estados Unidos tem se mostrado notavelmente resiliente. Em 2025, as empresas de serviços públicos do país geraram um volume recorde de eletricidade a partir de fontes renováveis. Neste ano, a previsão é que seja acrescentado um recorde de 45 gigawatts de capacidade de energia limpa, segundo a S&P Global Energy.

Apesar dos ataques de Washington à energia limpa — e também da disparada dos preços dos combustíveis neste ano —, as ações globais do setor de energia verde, em sua maioria, tiveram desempenho superior ao de suas equivalentes de petróleo e gás desde a segunda posse de Trump.

O problema para o governo é que os fundamentos econômicos da energia verde estão se mostrando mais difíceis de reverter do que as políticas que a sustentam.

Em primeiro lugar, os avanços tecnológicos tornaram painéis solares, turbinas eólicas e baterias cada vez mais competitivos, fazendo com que as fontes renováveis permaneçam entre as opções mais baratas para a geração de nova eletricidade nos EUA, mesmo sem subsídios.

Novos projetos solares e eólicos também levam menos de dois anos para entrar em operação, em comparação com pelo menos três anos no caso do gás. Os investimentos receberam um impulso adicional, embora temporário, à medida que os empreendedores correram para concluir projetos antes dos prazos da OBBBA para os créditos fiscais. Alguns incentivos à energia limpa sobreviveram integralmente à legislação.

As próprias intervenções de Trump também reforçaram os argumentos a favor da energia verde, tanto nos EUA quanto no exterior. Desde que o país lançou ataques contra o Irã, no fim de fevereiro, os preços dos combustíveis fósseis dispararam. Em resposta, mais famílias americanas passaram a demonstrar interesse por painéis solares residenciais e veículos elétricos como forma de reduzir as contas de energia.

Na semana passada, os preços médios da gasolina nos EUA estabeleceram um recorde para o maior número de dias em um ano acima de US$ 4 (R$ 20) por galão —por coincidência, esse é o patamar a partir do qual, segundo analistas, o carro elétrico se torna mais econômico do que os veículos que consomem muita gasolina.

Há ainda o boom da inteligência artificial, que o governo vem estimulando por meio de acordos de investimento e desregulamentação. Essa tecnologia, que demanda muita energia, está provocando uma disparada no consumo de eletricidade, e a projeção é que os centros de dados respondam por até 12% de toda a eletricidade consumida nos EUA até 2028.

A consequente busca por capacidade de geração elevou ainda mais o custo de novas usinas a gás, reforçando os argumentos em favor de alternativas verdes mais baratas e rápidas de implantar.

Outros freios e contrapesos atenuaram os planos de Trump. Tribunais americanos bloquearam tentativas de interromper projetos de energia renovável, enquanto empresas pressionaram com sucesso o governo em relação a empreendimentos específicos.

O "greenhushing" —a prática de levar investimentos adiante discretamente, sem alardear suas credenciais ambientais— permitiu que empresas prosseguissem sem atrair atenção política indesejada.

A ofensiva do presidente contra a energia verde não foi inofensiva. Sem ela, a transição energética dos Estados Unidos provavelmente estaria mais avançada, e a incerteza regulatória persistirá durante todo o seu mandato.

A escassez de trabalhadores da construção civil, os atrasos na concessão de licenças e o alto custo das matérias-primas também pesam sobre essa expansão.

Ainda assim, quase dois anos após o início de seu segundo mandato, os argumentos para adotar a energia verde se apoiam cada vez mais na necessidade de eletricidade mais barata, rápida de implantar e segura —e cada vez menos no discurso moralizante e ambientalmente consciente dos últimos anos.

Trump pode ter colocado obstáculos no caminho da transição verde, mas também ajudou, involuntariamente, a dificultar ignorar os argumentos a favor dela.

Fonte original Publicado originalmente por Folha Mercado
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