A 100 dias da eleição, 10 fatores testam a sucessão presidencial
Pesquisa mostra alto grau de decisão entre eleitores de Lula e Flávio, mas economia, PF, TSE, IA, Trump e palanques ainda podem mexer na disputa.
A 100 dias do primeiro turno, a sucessão presidencial entra em uma fase em que pesquisas continuam importantes, mas já não explicam sozinhas o tamanho da disputa. O presidente Lula chega à reta final em vantagem, com a máquina do governo, a agenda presidencial e a condição de candidato à reeleição. A direita tenta transformar o voto bolsonarista em candidatura competitiva, mas enfrenta divisões internas, palanques contraditórios e desgaste provocado por investigações. Nada, porém, está decidido.
O cenário é de disputa aberta, mas com sinais de voto cristalizado nos dois principais polos. Pesquisa Indexa divulgada na terça-feira indica que 67% dos entrevistados dizem que o voto já está definido. Outros 25% afirmam que ainda podem mudar de escolha, e 8% não souberam ou não opinaram.
Entre os eleitores de Lula, 81% dizem que a decisão já está tomada. Entre os apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL), o percentual é de 74%. A fidelidade ao voto de 2022 também se mantém elevada: 84% dos que dizem ter votado em Lula no segundo turno afirmam que votarão novamente no petista; entre os que votaram em Jair Bolsonaro, 69% declaram voto em Flávio. Em eventual segundo turno, Lula aparece com 47%, contra 40% do senador.
Os números reforçam a imagem de uma eleição não apenas polarizada, mas resistente a deslocamentos amplos de voto. Isso aumenta o peso dos independentes, da abstenção, da rejeição, dos palanques estaduais e de fatos capazes de alterar o ambiente da campanha. Economia real, segurança pública, TSE, inteligência artificial, operações policiais e declarações de atores externos podem ter impacto maior justamente porque parte expressiva do eleitorado parece pouco disposta a mudar de lado.
O calendário também impõe pressão. Convenções partidárias, registro de candidaturas e início da propaganda oficial vão transformar negociações de bastidor em campanha aberta. A partir daí, alianças, vices, palanques e crises internas ficarão mais expostos ao eleitor.
Veja dez fatores que podem definir a sucessão nos próximos 100 dias.
Com a taxa de desemprego em queda, o principal desafio de Lula será transformar governo em voto. Para isso, precisará converter programas, obras, crédito, renda e políticas sociais em percepção de melhora concreta. Preço dos alimentos, emprego, juros, endividamento e acesso a serviços básicos tendem a pesar mais do que discursos nacionais.
Se houver sensação de melhora, Lula tende a reforçar a dianteira. Se prevalecerem queixas sobre custo de vida, insegurança ou dificuldade de acesso a crédito, a direita terá espaço para explorar desgaste.
Pesquisa Datafolha divulgada na última segunda-feira (22) mostrou que cresceu de 30%, em março, para 36% o índice de eleitores otimistas com a economia. No mesmo período, caiu de 35% para 26% a parcela dos que se declararam pessimistas.
2. Voto fiel, rejeição e eleitor independente
A pesquisa Indexa mostra que Lula e Flávio têm bases com alto grau de decisão. Isso reduz a margem para migrações amplas entre lulismo e bolsonarismo e aumenta a importância de quem ainda não fechou posição.
Em uma eleição de voto cristalizado, rejeição também ganha peso. Lula e Flávio não precisam apenas preservar suas bases; precisam reduzir resistência entre eleitores que rejeitam um dos polos, mas ainda podem decidir entre votar no adversário, anular, se abster ou apoiar uma candidatura alternativa.
Os independentes tendem a reagir a temas como economia, segurança, corrupção, estabilidade democrática e capacidade de governo. Uma crise bem explorada, uma operação policial de grande repercussão ou uma piora na economia pode custar mais caro justamente nesse grupo.
A segurança pública tende a ocupar lugar central na reta final. O tema fala com periferias, mulheres, evangélicos, grandes cidades e eleitores independentes. Também permite à direita pressionar o governo federal, especialmente quando a campanha se aproxima das disputas estaduais.
Para Lula, o desafio será apresentar respostas concretas sem deixar que a oposição monopolize o assunto. Para Flávio, a segurança pode funcionar como eixo de mobilização, mas exigirá propostas que ultrapassem o discurso de confronto e dialoguem com eleitores menos ideológicos.
Na direita, o problema central é a unidade. Flávio Bolsonaro tenta se consolidar como herdeiro eleitoral de Jair Bolsonaro, mas ainda precisa demonstrar capacidade de falar além da base bolsonarista.
O senador sofreu desgaste após as revelações sobre pedidos de recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente. Flávio tentou enquadrar o episódio como negociação privada. Disse que o caso mostrava "um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai" e afirmou: "Não ofereci vantagens em troca."
O material apreendido nas investigações sobre o Banco Master ainda está sob análise, e novas revelações podem afetar oposição e governo. A relatoria das investigações no Supremo ficará com André Mendonça, a quem caberá conduzir pedidos e medidas eventualmente apresentados pela PF e pela PGR.
A crise pública entre Michelle e Flávio Bolsonaro acrescentou outro fator de instabilidade. Em vídeo divulgado na quarta-feira (24), Michelle passou a falar com voz própria, especialmente para mulheres e evangélicos, dois públicos estratégicos para qualquer candidatura presidencial.
Michelle x Flávio: entenda a crise e o racha na família Bolsonaro
Ao criticar alianças regionais do PL e cobrar coerência ideológica, a ex-primeira-dama mostrou capacidade de interferir nos palanques e disputar autoridade dentro do bolsonarismo. Para Flávio, o episódio é sensível porque o obriga a reduzir danos justamente entre grupos nos quais precisa crescer ou evitar perdas.
Para Lula, mulheres e evangélicos também serão prioridade. A campanha governista deve tentar falar com esses públicos por meio de renda, programas sociais, proteção às famílias, combate à violência e diálogo religioso.
Flávio pediu desculpas a Michelle caso ela tenha se sentido ofendida, elogiou a atuação da madrasta à frente do PL Mulher e já sinalizou que busca uma mulher para compor a chapa como vice.
O desgaste de Flávio não se converteu até agora em crescimento consistente de outros nomes da direita ou da centro-direita. Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Aécio Neves (PSDB) aparecem fragmentados nas pesquisas e distantes dos dois polos principais.
Esse é um dos paradoxos da eleição: Flávio enfrenta desgaste, mas os demais pré-candidatos ainda não conseguiram ocupar o espaço de alternativa competitiva. Para Lula, isso mantém a disputa concentrada contra o bolsonarismo. Para a direita, aumenta a pressão por unidade antes do início da campanha oficial.
A escolha do vice, o peso dos governadores, o papel de Jair Bolsonaro e a capacidade do PL de conter crises internas serão decisivos para saber se a direita chegará ao primeiro turno como bloco organizado ou campo dividido.
As investigações em torno do Banco Master são hoje um dos fatores de maior imprevisibilidade da sucessão. O caso já atingiu personagens de campos distintos. De um lado, Flávio Bolsonaro foi associado aos pedidos de recursos para o filme sobre Jair Bolsonaro. De outro, o senador Jaques Wagner, aliado de Lula, deixou a liderança do governo no Senado após entrar na mira da Operação Compliance Zero.
Nesta semana, sob pressão, Wagner deixou a liderança após reunião com Lula. A decisão buscou reduzir o desgaste sobre o Planalto em meio ao início da corrida eleitoral.
Esse tipo de investigação tem potencial para produzir desgaste cruzado. Se avançar sobre a oposição, pode comprometer Flávio. Se atingir aliados do governo, pode alimentar o discurso de corrupção e dificultar a articulação política no Congresso.
A eleição já começou no Tribunal Superior Eleitoral. PT e PL transformaram o TSE em uma frente paralela da pré-campanha, com ações sobre propaganda antecipada, pesquisas, vídeos, inteligência artificial e conteúdos manipulados.
O uso de IA será uma das principais novidades da disputa. Vídeos sintéticos, deepfakes, personagens digitais e conteúdos descontextualizados podem circular com velocidade maior do que a capacidade de reação das campanhas e da Justiça Eleitoral.
O TSE terá de decidir rapidamente quando se trata de sátira, propaganda irregular, manipulação ou desinformação com potencial de enganar o eleitor. Em uma disputa de voto mais cristalizado, a guerra digital pode mobilizar bases, desestimular adversários ou afetar indecisos.
Outro fator de turbulência está fora do país. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a tratar o Brasil em tom mais duro, em meio ao avanço da direita na América do Sul e à aproximação com a família Bolsonaro. A fala de que o Brasil seria um grande objetivo dos Estados Unidos, somada à declaração de que não é fã de Lula nem desgosta dele e de que o brasileiro seria "volátil", marca uma inflexão em relação a momentos anteriores de maior cordialidade.
Lula reagiu com discurso de soberania. "Não se meta nas eleições no Brasil", disse o presidente, ao defender que a disputa brasileira seja tratada como assunto interno.
A tensão pode ter efeito duplo. Para Lula, qualquer sinal de pressão externa pode reforçar o discurso de defesa da democracia e da soberania nacional. Para a direita, a aproximação com Trump pode funcionar como ativo junto à base bolsonarista, mas também abre flanco para acusações de alinhamento a interesses estrangeiros.
Os palanques estaduais completarão o tabuleiro. São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Ceará, Paraná, Rio Grande do Sul, Goiás e Pará terão peso decisivo na eleição presidencial e nas disputas para governador, Senado e Câmara.
Um palanque forte entrega prefeitos, deputados, militância, estrutura e discurso local. Um palanque dividido pode neutralizar a campanha nacional. O caso do Ceará, com a crise em torno da aliança do PL com o grupo de Ciro Gomes, mostrou como decisões estaduais podem produzir impacto nacional.
Os prefeitos eleitos em 2024 também serão peças centrais. Eles chegam a 2026 com máquinas municipais, bases organizadas e influência direta fora das capitais. Em uma eleição de margens apertadas, a capilaridade local pode fazer diferença.
A disputa pelo Senado terá peso próprio. Como duas vagas estarão em jogo por estado, a eleição pode redesenhar a correlação de forças do próximo governo. Para o eleitorado mais politizado, temas como STF, anistia, dosimetria, segurança pública e combate à corrupção podem transformar a disputa ao Senado em extensão da corrida presidencial.
A 100 dias da eleição, Lula precisa preservar vantagem, conter desgastes e transformar entregas em voto. Flávio precisa reduzir danos, manter a direita unida e convencer eleitores fora da base bolsonarista. Os demais pré-candidatos precisam mostrar que ainda podem sair da condição de alternativas laterais.
O alto grau de decisão entre eleitores de Lula e Flávio indica uma eleição com bases firmes e pouca margem para conversão direta entre os dois campos. Por isso, os próximos três meses serão menos uma disputa por grandes migrações e mais uma batalha por independentes, abstenção, rejeição, palanques, narrativa e resistência a crises.
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